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PALAVRA DO DOUTOR: GAIOLA PARA PÁSSAROS PDF Imprimir E-mail
Escrito por Marcelo Mari de Castro   
Ter, 26 de Julho de 2011 00:00

Médico PSF, cirurgião, legista IML e Professor de Medicina LegalMédico PSF, cirurgião, legista IML e Professor de Medicina Legal

Contam os vizinhos que um certo senhor co-nhecido de todos nós, passava os seus dias armando e desarmando seu alçapão, sistematicamente em seu quintal. Aprisionava pássaros belos e soltava os pardais.  Cansava-se com a insistência das rolinhas que insistiam em “roubar-lhe” as iscas, para matar a fome... Engaiolava tudo que era belo, dependurando-os por todos os pregos que podia, como se fossem quadros. Orgulhava-se dos “troféus” e do comércio que realizava. 

Em uma certa tarde, após realizar suas atividades como “capturador de pás-saros”, pegou sua bicicleta e foi a procura de mais uma gaiola. Pedalou insistentemente pela cidade, procurando por uma oferta melhor. Encontrou-a! Ali, naquela venda, estava mais uma “prisão móvel”. Como os preços variavam, optou por uma menor e logicamente mais barata. Porque se preocupar com o tamanho, se aquela próxima “vítima” teria seu quintal inteiro para apreciar?

Retornou ansiosa-mente para casa, equilibrando-se na bicicleta com a gaiola em uma das mãos. Não via a hora de pendurar mais um “quadro” e aumentar  sua coleção.   

Ao passar entre o quebra-molas e o  passeio, ocorreu o inesperado. O velho senhor, caiu de sua bicicleta, arrastando-se por alguns metros, sobre o asfalto quente, até bater contra um portão. Deixara um rastro de angústia e dor. A dor, o fez desviar as atenções da gaiola completa-mente destruída. 

Socorrido por amigos e encaminhado ao pronto atendimento. Submetido a avaliação e exames. Diagnosticado fraturas de membro superior, costelas e uma clavícula. Havia suspeita de um traumatismo craniano. Leve, mas havia a suspeita! Não entendia por que os arranhões e as feridas não o incomodavam. Ficou atônito. O que parecia uma simples ida à venda, se tornara um pesadelo. Recebeu a notícia de que seria internado, mantido em observação e absoluto repouso. E assim foi. Mantinha imóvel o membro contido por gesso. Não mexia na cama devido a imobilização para clavícula, não saía do quarto devido às ordens médicas. Alguém o havia trancado. Havia o colocado em uma gaiola, isolado do mundo... E, olha que nem havia um jardim para apreciar. Passaram os minutos, as horas e os dias...

Houve tempo de sobra. Pensou em tudo que havia feito com os pássaros que o visitava em sua casa. Assimilou funcionários consigo mesmo, afinal de contas, ele colocava comida para os pássaros presos, agora, alguém colocava comida para ele.

Recebeu alta, após melhora e sua estabilidade. Chegou em casa, recolheu suas gaiolas, chamou por sua esposa e foi soltando pássaro por pássaro... Descobriu que para a liberdade não havia preço... Que por mais bem tratado que os seus “prisioneiros” fossem, ainda seriam prisioneiros... Ir a venda agora, era só pra comprar a ração e espalhar nos pontos, carinhosamente, montados nas árvores. 

Há vizinhos que afirmam que deste dia em diante, os cantos dos pássaros são ouvidos com mais intensidade de seu jardim. E, que a sua casa, passou a ser a mais visitada, pelas aves de nossa cidade.

Marcelo Mari de Castro - Médico PSF, Médico Cirurgião, Médico Legista IML/MG, Professor Universitário na cadeira de Medicina Legal.

Última atualização Ter, 20 de Dezembro de 2011 05:49
 
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