Um dos consórcios foi formado por fundos públicos e gerou polêmica
Sucesso. Aeroportos de Guarulhos, Campinas e Viracopos foram leiloados ontem na Bovespa e lembrou o processo de privatização. Foto: HELVIO ROMERO/AGÊNCIA ESTADO
São Paulo. O resultado do leilão de privatização dos aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília superou as expectativas mais otimistas do mercado. Ninguém duvidava que a disputa seria acirrada, mas não se esperava ágios de até 673%, como ocorreu com o aeroporto de Brasília. Na média, as três concessões tiveram ágio de 347% e vão render ao governo federal R$ 24,5 bilhões. O dinheiro, pago em parcelas anuais durante o período de concessão, será usado em melhorias no setor aéreo. Incluindo todos os aeroportos administrados pela Infraero.
Segundo uma fonte que assessorou um dos principais consórcios que participaram do leilão, o resultado deve levar o governo a realizar neste ano ou no próximo novas privatizações de aeroportos com dificuldades crônicas de funcionamento, com destaque para o Galeão, no Rio de Janeiro, Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte, e Salgado Filho, em Porto Alegre. O próprio governo já sinalizou essa possibilidade quando abriu, há cerca de um ano, o projeto de conceder os três aeroportos leiloados ontem para a iniciativa privada.
Realizado na manhã de ontem, na sede da BM&FBovespa, o leilão lembrou as grandes privatizações da década de 90, com direito a protestos na rua XV de Novembro e muito buchicho entre os investidores. No saguão da bolsa paulista, estava a nata da infraestrutura brasileira e da construção civil, como Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa. As três gigantes, no entanto, saíram de mãos abanando.
Quem causou furor entre os investidores foi o consórcio formado pela Invepar, empresa formada pelos fundos de pensão (Previ, Funcef e Petros) e a construtora OAS. Em parceria com a operadora estatal sul-africana ACSA, o grupo minou qualquer possibilidade de a concorrência arrematar o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. A oferta, de R$ 16,21 bilhões e ágio de 373,5%, era R$ 3,3 bilhões superior ao segundo melhor lance.
A disputa foi para o viva voz, mas ninguém ousou fazer propostas. Nas rodinhas entre executivos que participaram do leilão, a aposta era descobrir como o consórcio conseguiu fazer uma proposta tão alta por Guarulhos. E não faltaram insinuações como: "É um consórcio chapa branca" ou "ficou dentro de casa", uma referência ao fato de o consórcio ser formado por fundos de pensão de estatais como Banco do Brasil, Caixa e Petrobras.
Advogados que estudaram os três aeroportos não conseguiram encontrar a equação financeira do grupo e acreditam que o retorno do investimento não supere 4%. O presidente da Invepar, Gustavo Rocha, mostrou-se bastante satisfeito com o resultado e revelou que espera elevar de forma significativa o volume de receitas não tarifárias do aeroporto.
Dilma quebra alguns tabus ideológicos
Brasília. Os leilões de privatização de três aeroportos brasileiros estão sendo bem avaliados pelo investidor estrangeiro e significam um ponto positivo para o governo de Dilma Rousseff, avaliou o chefe de Pesquisa de Mercados Emergentes para as Américas da Nomura Securities em Nova York, Tony Volpon. "A sinalização que isso dá é sobre a capacidade e vontade do governo Dilma de romper com certos tabus ideológicos dentro do próprio governo, do partido (PT) e está sendo visto de forma positiva. Ninguém esperaria que isso saísse do governo Lula, mas ela foi lá e fez", comentou o economista.
PRIVATIZAÇÃO: Modelo é mais eficiente, diz especialista Brasília.
O leilão de três dos principais aeroportos do país consolida o modelo "híbrido" de privatização como o preferido pelo governo federal. Neste modelo, o Estado continua como sócio ativo, podendo acompanhar a administração e contribuir com os investimentos necessários para a ampliação dos serviços. É um sistema bem diferente do que o país adotou nos anos 1990 para os setores de telefonia e energia elétrica, baseado na privatização completa e atuação do governo por meio das agências reguladoras.
A condição de sócio também visa a evitar a descontinuidade dos investimentos, como ocorreu no caso das privatizações de rodovias, de acordo com Paulo Fleury, presidente do Instituto de Logística e Supply Chain. "A participação de 49% da Infraero nos aeroportos vai permitir que o governo esteja mais perto e brigue para que os investimentos sejam feitos", disse.
Como ficou
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