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A BENÇÃO, TIA SÍNTIA, LEVADA E SAPECA PDF Imprimir
NOTÍCIAS - ENTREVISTA
Escrito por Ivana Diniz   
Dom, 07 de Março de 2010 19:12

A Equipe do Portal de Confins deixa aqui suas condolências aos familiares da nossa querida Tia Síntia e para recordar um pouco, segue entrevista feita em fevereiro de 2010 (Edição número 5) com essa importante cidadã de Confins.

Dona Síntia, 94 anos, lembra a tabuada de cor, lê a bíblia e reza muito o terço. Foto: Ivana DinizDona Síntia, 94 anos, lembra a tabuada de cor, lê a bíblia e reza muito o terço. Foto: Ivana Diniz

Dona Síntia, 94 anos, lembra a tabuada de cor, lê a bíblia e reza muito o terço. Canta em latim. Muito lúcida e dinâmica, junto dos bisnetos e do tataraneto, ela conversou com o Portal de Confins sobre escola, infância, teatro, casamento, seu ofício de parteira e benzedeira.

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Portal de Confins: Há quanto tempo a senhora mora aqui na nossa cidade de Confins?

Dona Síntia: Quando eu abri os olhos já estava aqui em Confins.

PC: Com o tempo toda cidade tende a se transformar, quais as principais mudanças a senhora destacaria, daquela época para os dias de hoje?

DS: Cada um tinha sua moradia, havia muita fartura, mas não tinha estrada, escola. Hoje é uma maravilha, vejo os meninos indo pra escola com facilidade.

PC: Que lembrança a senhora guarda de seus pais?

DS: Meus pais sempre estavam na igreja, o prazer do meu pai era ajudar os padres. Eu tive 6 irmãos, mas fui criada por padrinhos. Certa vez, meu pai estava indo trabalhar num terreno e me levava a cavalo. Ele percebeu que vinha uma chuva muito pesada e me entregou para minha madrinha. Disse que daí a pouco me pegava, quando voltou para me pegar, a madrinha disse que eu poderia ficar mais um pouquinho. No outro dia minha mãe começou a se sentir mal . Diziam que a doença chamava-se “espanhola”, com muitas crianças pra cuidar, papai me deixou mais um tempo na casa dos meus padrinhos. Eu era pequenininha, mas tinha um amor imenso por meus padrinhos, eles não tiveram filhos e eu era o xodó deles. Lembro de várias vezes, quando o padrinho estava chegando eu falava: “Qué que busca o chinelinho pro senhor?” Nessas horas ele me pegava no colo e falava: Não vai lá na casa de baixo (a casa dos pais), porque aquela casa vai cair na sua cabeça... Quando minha mãe ficou boa de novo, minha madrinha me levou pra casa. Conversou bastante com minha mãe e de repente sumiu. Chorei tanto, fiquei tão chateada e aí não teve jeito, tiveram que me levar de volta pra madrinha.

PC: E como foi a vida a partir daí?

DS: Comecei a estudar, fora daqui, pois não tinha recursos na cidade. Aprendi a tabuada e a gostar de ler. Gosto muito de ler a bíblia e é sem óculos.

PC: Então a senhora gostava da escola?

DS: Gostava demais, era dedicada, treinava muito a tabuada. Eu era amiga da professora, ela era uma mulher bonita e quando o inspetor ia visitar a escola ela me chamava e pedia: “Oh, Síntia a hora que o inspetor chegar você fique aqui do meu lado pra fazer companhia”. A professora nos dava muita alegria e nós tínhamos muito respeito por ela.

PC: Nessa parte da entrevista D. Síntia lembrou de uma representação teatral que ela fazia com a irmã. Fiquei mais apaixonada por ela ainda! D. Síntia fazia a mãe e sua irmã fazia a filha. A professora as levava para apresentar em várias comemorações da região. A história é tão simples e linda, como a vida deveria ser. Em resumo: a mãe sai de casa e pede pra que a filha não coma do melado, mas criança sabe como é, né? A menina vai culpar o gato pela desobediência. A filha não consegue enganar a mãe. Todo o mundo deveria ouvir essa história, transcrevo aqui apenas uma parte.

DS: (trecho da peça)
“Mãe: Hei de levar-te a teu pai e ele vindo, nunca mais hás de dar-te bolas, carrinhos, petecas, caixinhas de doces cheias e belas e ricas bonecas. Não mais calçarás meias de seda nem luvinhas, pois quem mente não deve andar enfeitada.
Filha: Afinal, mamãe é uma mentira só, até de mim não tem dó?
Mãe: Atrás de uma virão duas! E ficarás acostumada a pregar das tuas.”

PC: E a adolescência? Que recordação a senhora guarda?

DS: Fui uma menina criada com bastante fartura. Nos fins de semana, eu arrumava a casa e ia junto com a comadre Zizi para o campo de futebol, o time jogava muito bem! Meu padrinho contratou um rapaz bonito pra trabalhar com ele, seu nome era José Ribeiro dos Reis. Ele já trabalhava lá há uns oito anos e eu era mocinha, carregava notícia da namorada dele. Ele já era um ótimo músico. O José começou com umas indiretas de que gostava de mim, aí eu guardei só pra mim e fiquei apaixonada por ele.

PC: E como foi essa nova fase da vida?

DS: Eu entrei para o coral da igreja, me casei com o José, ele regia o coral e nós cantávamos por toda a região, na igreja, na chegada do andor. Era bonito demais! Eu gostava tanto do coral que queria ficar todo o tempo com o caderno de música na mão. Quando via que o José estava chegando aí é que eu escondia o caderno dentro do armário.

PC: Como surgiu esse ofício de parteira?

DS: Pouco antes de ter meu único filho, aquela professora querida me mandou uma oração embrulhadinha no papel, eram 3 pedacinhos. A gente tomava como se fosse uma pílula: antes do parto, no parto e depois do parto. Deus me deu só um filho porque sabia que eu ajudaria a trazer muitos ao mundo. A minha tia Rosa era uma ótima parteira e teve 7 filhos. Com muito trabalho, ela me chamava pra ajudar e já nas primeiras vezes disse que eu seria uma boa parteira. Não demorou muito pra que eu fosse chamada pra fazer partos.

PC: E como era sensação de participar de um momento tão especial da vida? A senhora alguma vez ficou insegura?

DS: Eu amarrava o umbigo bem direitinho, algumas tinham o nenê atravessado e eu rezava para consertar. Ia com minha malinha de coisas que ia precisar, já teve vezes de precisar levar até balde de água quente. Deus sempre me ajudou.

PC: Faço minhas as palavras de um coronel, afilhado da Dona Síntia que acabou de chegar aqui: “A benção, tia Síntia, levada e sapeca!”

 

Comentários  

 
0 #1 Wenderson Araújo 05-10-2011 11:18
Vai-se uma das melhores pessoas que já conheci na vida. Humilde, caridosa, sincera, amante da vida religiosa. Confins perde uma grande personagem que ajudou a construir tudo isso que desfrutamos hoje. Ficam as saudades.
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