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Walter Neves em seu laboratório: crânio redescoberto no museu
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Mesma conclusão – Para reconstituir o rosto de Luzia, pesquisadores ingleses estiveram no Brasil no início do ano e fizeram uma série de exames tomográficos no crânio exposto no Museu Nacional. Levados para Londres, os resultados desses exames foram reprocessados em um computador na University College London. Dessa maneira, os pesquisadores obtiveram uma imagem tridimensional e, a partir dela, produziram um crânio idêntico ao encontrado em Lagoa Santa. O modelo foi então encaminhado ao professor Richard Neave, da Universidade de Manchester, especialista em reconstituições faciais. As características aferidas por Neave dentro de seu sistema de catalogação populacional bateram com o modelo negróide defendido por Neves. "Foram dois métodos diferentes que levaram a um mesmo resultado", afirmou Neave a VEJA.
Quando foi resgatado, em 1975, do sítio arqueológico de Lapa Vermelha, Lagoa Santa, o crânio de Luzia estava emborcado, com a arcada superior voltada para cima. Um pouco mais abaixo, na direção do fundo da gruta, a equipe da qual fazia parte o arqueólogo André Prous achou outros ossos: a mandíbula, costelas, fragmentos das pernas e dos braços. Ao todo, recolheram um terço de um esqueleto humano completo. "Não era uma sepultura como outras que já havíamos encontrado", relembra Prous. "O corpo foi atirado no fundo da caverna ou caiu lá acidentalmente." Esses dados, um tanto quanto precários, dificultaram, na ocasião, a datação do achado a partir das camadas de depósitos geológicos da gruta – um método muito utilizado em outros sítios arqueológicos.
Logo depois, Prous achou outro sítio arqueológico, a cerca de 60 quilômetros de distância de Lagoa Santa, no sopé da Serra do Cipó, em um lugarejo chamado Santana do Riacho. De lá saíram dezenas de esqueletos com características idênticas e contemporâneos ao de Luzia. Também foram identificadas algumas ferramentas, como pedras de quartzo lascadas que funcionavam como pontas de flecha e raspadeiras. São hoje as pistas que os cientistas têm para decifrar o enigma dos "Homens de Lagoa Santa". A partir da quantidade de ossos encontrados em Lapa Vermelha e Santana do Riacho, os arqueólogos estimam que o grupo que vivia na região não ia além de umas poucas dezenas de indivíduos. Na época, a temperatura da região era cerca de 5 graus Celsius mais fria do que a atual. Ainda passeavam por ali animais extintos como a preguiça-gigante, ou megatério, e um bicho semelhante ao tatu, chamado gliptodonte, e até mesmo mastodontes. E também os tigres-dentes-de-sabre, predadores terríveis da fase final do pleistoceno. Segundo Prous, não é possível dizer se os grandes animais eram caçados pelos homens de Lagoa Santa.
Pesquisas conduzidas pelo arqueólogo Neves nos ossos encontrados por Prous mostraram resultados intrigantes quanto aos hábitos alimentares desse povo. A análise da dentição dos fósseis permitiu cotejar o número de cáries com uma tabela internacional para medir o perfil alimentar. Por essa tabela, índice de cáries de zero a 2% do total dos dentes indica um perfil de povos caçadores e coletores, com baixíssimas taxas de açúcar na dieta. Entre 2% e 10% indica uma fase de transição, em que há uma agricultura incipiente, com plantas que já introduzem açúcares na dieta. Com 30% de cáries chega-se ao perfil do índio brasileiro, com uma agricultura já estabelecida. Entre os homens de Lagoa Santa obteve-se um índice de 10%. Então eles tinham agricultura incipiente? Não. Os primeiros indícios de agricultura entre os povos mais antigos do Brasil datam de 4.000 anos. O grupo de Luzia tinha cáries porque comia mais vegetais do que carne e vivia mais da coleta do que da caça.
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Pinturas rupestres no Piauí: violência retratada há 9 000 anos
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A nova face dos primeiros habitantes do continente vem à tona num momento em que as origens da humanidade estão sendo sucessivamente chacoalhadas por outras descobertas. Nunca a arqueologia, a genética, a biologia e a antropologia foram tão longe na escala do tempo em busca dos ancestrais humanos. Desde 1994, quatro novas espécies de hominídeos foram acrescentadas à árvore da evolução, entre elas a mais antiga já encontrada, a do Ardipithecus ramidus, de 4,4 milhões de anos. Testes de DNA contabilizaram as variações genéticas entre homens e chimpanzés no decorrer do tempo e apontaram que a humanidade se separou dos macacos num período entre 4 e 6 milhões de anos atrás. Descobriu-se o mais antigo sítio com ferramentas, na África, datado de 2,5 milhões de anos, e também que entre 1 milhão e 2 milhões de anos atrás o cérebro dos possíveis ancestrais humanos cresceu drasticamente, devido à introdução de uma dieta mais rica em proteínas na alimentação.
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