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Massacre – A reconstituição da face de Luzia, que VEJA publica com exclusividade, foi encomendada à Universidade de Manchester pela rede de televisão inglesa BBC. É a principal atração de um documentário que será exibido na Inglaterra na próxima quarta-feira, 1º de setembro. O rosto foi modelado em argila mediante um minucioso trabalho de pesquisa que incluiu exames do crânio por meio de tomografias computadorizadas. A imagem final da primeira brasileira, obtida nesse processo, é mais do que uma simples curiosidade científica. Ela está produzindo uma revolução nas teorias a respeito da ocupação da América pelos seres humanos.
Até algum tempo atrás, acreditava-se que antes de Colombo e de Cabral o continente americano tivesse sido ocupado uma única vez, pelos antepassados dos índios atuais. Eles teriam saído da região onde ficam hoje a Mongólia e a Sibéria, cerca de 12.000 anos atrás. Atravessaram o Estreito de Bering, entre a Ásia e a América do Norte, valendo-se de uma ponte de gelo ainda remanescente da última era glacial. Aos poucos, espalharam-se pelo continente, até chegar à Patagônia, passando pelo Brasil. A descoberta de Luzia derruba essa explicação. Ela mostra que antes dessa marcha empreendida há 12 000 anos uma outra leva, bem mais antiga, chegou à América. Luzia seria descendente desse grupo. Aparentados dos atuais aborígines australianos, esses primeiros colonizadores teriam saído do sul da China atual e atingido o continente americano cerca de 15.000 anos atrás – três milênios antes da segunda leva migratória. Como nessa época a Idade do Gelo ainda não havia chegado ao fim, teriam usado canoas para fazer a navegação costeira e contornar os enormes maciços glaciais que bloqueavam a passagem entre a Ásia e a América do Norte. Viveram aqui milhares de anos, isolados do resto do mundo, até desaparecer na disputa por caça e território com a leva migratória seguinte, esta sim ancestral dos índios de hoje.
Luzia é um apelido dado por cientistas há pouco mais de um ano, quando se comprovou que era o crânio mais antigo encontrado no continente americano. Um repórter perguntou a Walter Neves se o fóssil seria a versão americana de Lucy, a mais famosa ancestral humana, de 3,2 milhões de anos, achada na Etiópia e hoje em exposição no Museu do Homem em Paris. Neves respondeu que, devido à procedência brasileira, a descoberta estava mais para Luzia do que para Lucy. Desde que alcançou notoriedade internacional, a caveirinha ganhou lugar de honra no Museu Nacional. Também é lá que deve ser exibida, a partir do mês que vem, sua face reconstituída na Inglaterra.
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