O Aeroporto Internacional Tancredo Neves é a menor distância de Minas para o mundo. O Estado de Minas passou oito horas testemunhando chegadas e partidas do estrangeiro
O dia é pouco para as histórias de tantas vidas que se cruzam. Foto: Reprodução da Internet
O dia é pouco para as histórias de tantas vidas que se cruzam. Com previsão para mais de 9 milhões de passageiros até o fim do ano, o Aeroporto Internacional Tancredo Neves é a menor distância de Minas para o mundo. Só em agosto, cerca de 28 mil pessoas desceram ou subiram pelos céus de Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a cada dia. Para acompanhar o interminável desfile nessa passarela aberta para o planeta, o Estado de Minas passou oito horas testemunhando chegadas e partidas do estrangeiro. Descobriu tramas de saudades, dores e alegrias de gente que, com ou sem medo de sair do chão, foi longe para reconstruir o futuro, estudar, trabalhar ou passear por outras paisagens. Histórias como a de Geovane Paulino – o "Obama da pizza", que passou sete anos nos EUA, longe da mulher e dos filhos em busca de seu sonho brasileiro. Ou a do judeu Sewek Geber, que, em plena Segunda Guerra, não pôde nascer na Polônia, terra dos pais, massacrada pelos nazistas. Aos 71 anos, o russo se prepara para levar os filhos para conhecer Auschwitz. O EM também encontrou equipe que vai correr a maratona de Berlim; jovem promessa do futebol voltando de Portugal; casal maduro que pretende discutir a relação na Europa; dupla enamorada, romântica, rumo à Argentina; professora decidida a trocar a Itália pelo Brasil. E também jovem mestre em gestão pública por universidade da Inglaterra, de volta, cheio de vontade de ajudar o Brasil. Flashs da trajetória de gente comum que carimbou em Confins seus passaportes de cidadãos do mundo.
O Obama da pizza
Um homem só, cheio de malas, muito parecido com o presidente norte-americano, Barack Obama, chama a atenção. De pé, Geovane Paulino, 39 anos, cata com olhar alguém ao longe. Respira fundo, com notável cansaço. Já são 30 horas sem dormir. E isso já nem parece tanto, diante dos sete anos sem abraçar a mulher e os filhos, Gustavo, Camila, Ludmila e Geovane Júnior. "Com licença, senhor?" "Yes...", ele responde, ainda confuso com o idioma. O depoimento impressiona. A começar pela entrada nos Estados Unidos. Pelo México, foram 13 dias nas mãos dos "coiotes do deserto". Da arriscada travessia ficou dívida de US$ 17 mil, um ano e meio para pagar. Em Boston, sem falar inglês, foi lavar pratos em pizzaria. Dedicado, não demorou a ser promovido. Mas ainda seriam 85 meses de jornadas triplas. Evangélico, conta que se dedicou de corpo e alma para manter o casamento e o amor pela mulher, Sandra Regina. É ela quem aparece ao fundo, franzina, a passos largos. Geovane salta num sorriso para o abraço, laço de 21 anos de união, 14 de presença física. O casal pretende montar pizzaria em BH com a receita de sucesso que Geovane trouxe e que o fez arrebatar elogios de celebridades. Entre elas, Mick Jagger, dos Rolling Stones: "Obama, you are the number one!", disse o roqueiro ao pizzaiolo.
De olho no futuro
Aos 27 anos, um cidadão do mundo. Bolsista do governo britânico – especialista em "acessar a inteligência global e criar laços estratégicos" –, André Barrense já buscou conhecimento na Espanha, nos EUA e acaba de voltar da Inglaterra com o título de mestre pela Faculdade de Economia e Ciência Política de Londres. Já chega empregado pelo governo de Minas em departamento de prioridades estratégicas. O cientista político vê o Brasil em franco crescimento: "São muitas as oportunidades. Ainda há muito a ser feito, mas o país está bem visto lá fora. O momento no Reino Unido não é bom. Há qualificação, os profissionais têm boa formação e, ainda assim, estão fora do mercado", comenta. Odair Barrense, empresário, chegou de Salvador e ficou no aeroporto para esperar o filho. Ao lado do amigo de infância de André, Marcelo Abdo, o pai conta os instantes para abraçar o herdeiro. Lado a lado, não esconde a satisfação de ver dar certo o velho projeto de priorizar a educação dos filhos. A menina da família, Fernanda Maria, está na Alemanha. "O coração fica apertado e a casa fica grande demais sem eles. Ao mesmo tempo, a gente fica muito feliz de vê-los tão bem encaminhados", orgulha-se. André, Odair e Marcelo seguiram para o Bairro de Lourdes, surpresa para a mãe, que não espera pelo filho, depois de um ano em terras da rainha.
O sonho nas chuteiras
O meio-campo Kaique, de 15 anos, não é craque apenas aos olhos da família. Tanto que o jogador juvenil acaba de ter oportunidade de ouro no Sporting Lisboa, de Portugal. Durante 20 dias em testes e treinamento no time lusitano, o adolescente por muito pouco não foi emprestar seus dribles à Europa. Mas acabou se machucando e ficou fora de jogo decisivo. Não faz mal. Ainda é cedo para o jovem de futuro, de futebol de raiz, tipo exportação, dobrar o Velho Continente. De cabeça erguida, desembarcou em Confins no fim da tarde e foi recebido com festa pelos pais e pelo avô Moacir Antônio Cortes, de 55 anos, que acumula o cargo de empresário do garoto. Segunda-feira, Kaique se apresenta ao América, time que marcou a carreira do pai, Michael Adrian, de 32. Foi pelo Coelho que o ex-jogador conquistou os títulos de campeão brasileiro da Série B (1997), mineiro (2001), Sul-Minas (2000) e Taça Minas Gerais (2005). A mãe, Ivone Rodrigues, fã número 1 do rebento, era só beijos e abraços. "É muita saudade", sorriu. O avô, atento à carreira do meio-campista juvenil, aposta no sonho antigo de família. Ao ver a reportagem, arriscou: "Tenho um garoto, muito bom de bola, que pode ser boa notícia para os leitores. Daqui a pouco está chegando de Portugal. Interessa?" Claro, Moacir. Taí. Boa sorte para o Kaique.
Para celebrar a vida
Uma lágrima mina dos olhos de Sewek Geber enquanto ele sopra a frase que pretende deixar para a posteridade: "Russo nasci, polonês me criei, israelense me tornei e o Brasil, a terra prometida, encontrei". São muitas as histórias de dramas e alegrias no coração desse senhor, nascido em 1940, com os pais refugiados na União Soviética. Crescido na Polônia, trilhou novos rumos globo afora: "Em 1957, deixamos o país. Na época, a gente saía da pátria e perdia a cidadania", conta. Sewek ficou em Israel até 1959, quando decidiu morar em terras brasileiras. Conta que desembarcou no Brasil com um dólar no bolso. A primeira palavra em português que aprendeu foi "Flamengo", seu time de coração. O Rio de Janeiro também lhe deu Bela, a inseparável companheira brasileira. Belo Horizonte entrou no mapa em 1966. Vendedor ambulante no Rio, os negócios prosperaram e o comerciante montou escritório próprio na capital mineira. Em Confins, reuniu os filhos, Michelle, Simone e Mauro, além do genro e da nora. Juntos, vão passar pela Alemanha e depois seguir para a Polônia, em busca do resgate da cidadania europeia. A viagem tem todo o apoio de Bela, que fica em BH, cuidando dos netos.
O amor está no ar
Cenas que reúnem casais se repetem aeroporto afora. Mãos discretas, entre dedos, mesmo empurrando carrinhos com malas, estão espalhadas pela área de check in. Em Confins, abraços e beijos são paisagem. Encontram-se também casais mais discretos, comedidos. No saguão principal, na mesa, durante café da tarde, mãe e filhos conversam simplesmente. Aguardam a hora de embarque para voo rumo à Europa. Os irmãos Sylvia Helena, de 25, e Rafael Paiva, de 27, desta vez não vão. Foram apenas levar os pais, Délio Lellis, de 49, e Fátima Amaral, de 51, "em viagem para discutir a relação". Serão 20 dias percorrendo França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Inglaterra e Portugal. Segunda lua de mel? O casal sorri, mas desconversa. Délio, servidor público federal, prefere falar de política: "Não acho que é esta maravilha que estão dizendo, não. Vejo o Brasil rico, mas muito mal administrado. Hoje, se estamos colhendo um pouco, tenho certeza de que, se não fosse tanta corrupção, seria muito melhor". Fátima não discorda. Mas e a viagem a dois? De melhor para eles, entre sorrisos cúmplices, nova oportunidade de conhecer pessoas e lugares. Os filhos acham graça do clima de romance e torcem pela boa viagem dos pais. Ah, Paris!
Viajar, correr, andar
A juíza federal Carla Gomes, de 38 anos, não se cansa. De férias, está de passagem por Confins rumo a Alemanha e Portugal. Inscrita no final do ano passado, vai correr sua primeira maratona, com mais de 42 quilômetros, hoje, em Berlim. Conhecedora de trilhas do mundo, cita o exterior com satisfação, mas está na mineira Tiradentes o carinho pela terra. Com fôlego de menina, depois de correr na Alemanha Carla já tem planos para 2012: correr em Paris. Para a juíza, uma oportunidade de unir paixão e saúde. "Trabalho muito e o meu lazer é entre amigos. Correr e viajar é minha vida pessoal", conta, alegre, enquanto aguarda os amigos, companheiros de viagem. Com a juíza, seguem para Berlim a médica Érika Mota e o casal Bernardo Gomes e Monique Ayres, ela grávida de dois meses – dos quatro, a única que não vai disputar a famosa corrida, que, este ano, deve receber 40 mil atletas de todo o mundo. "De Belo Horizonte, me parece que são quase 100. Participei de uma reunião com cerca de 20 atletas", conta Carla. É quase hora de partir. Érika, Bernardo, Monique e Carla andam calmamente rumo à área de embarque. Pelo caminho, juntam-se a outros maratonistas, andantes em Confins. De agora em diante, serão apenas passageiros, nome que ganham ao cruzar essa janela para o mundo aberta nos confins da Grande BH.
Raio x do aeroporto
841.347
passageiros só em agosto
6 milhões
em trânsito em 2011
9,5 milhões
de passageiros. É o volume que Confins deve receber até o fim do ano, o correspondente a quase o dobro de sua capacidade
R$223,9 milhões
serão investidos até 2013 em obras de ampliação, reforma, modernização e infraestrutura
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